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Projecto
Caracterização da Região
Movimentos de Massa
Sismos
Tsunamis
Análise de Risco
Conferência
Modelo 3D do estuário do Tejo Caracterização de eventos holocénicos de alta energia no estuário do Tejo Cenários de Tsunami em Lisboa Simulação hidrodinâmica de Run-up em Lisboa Cartas de Vulnerabilidade ao Risco de Tsunami

Caracterização de eventos holocénicos de alta energia no estuário do Tejo

Recorrência de tsunamis no Estuário do Tejo

Autores:

Maria da Conceição Freitas1, 2, César Andrade1, 2, Tiago Silva1

 

1 – Centro de Geologia da Universidade de Lisboa (CeGUL)

2 - Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

1. Introdução

De acordo com a proposta de trabalhos submetida e aprovada, nomeadamente no que respeita à tarefa 6.2. Caracterização de eventos holocénicos de alta energia no estuário do Tejo, o relatório IE 19 corresponde ao entregável que sumariza os conteúdos alcançados no âmbito deste projecto de investigação pela equipa coordenada pela Prof. Doutora Maria da Conceição Freitas (FCUL) e César Andrade (FCUL) e que incluiu ainda o bolseiro Tiago Silva e serviços prestados pela Doutora Áurea Narciso. O entregável versa sobre o registo geológico de eventos de alta energia em sedimentos do estuário do Tejo, com o objectivo final de contribuir para a determinação de um intervalo de recorrência de tsunamis de elevada magnitude naquele espaço estuarino, fundamentado em registos indirectos e cobrindo intervalo temporal longo, no caso presente o registo sedimentar dos últimos 10 000 anos (Holocénico).

O estuário do Tejo, o segundo mais extenso da Europa, apresenta ao longo das suas margens importante e densa ocupação antrópica, consolidada, com natureza habitacional, industrial e comercial, constituindo-se numa faixa estreita com elevada densidade populacional e de investimento económico, grande parte da qual está hoje (como esteve no passado) ao alcance de uma inundação extrema, provocada, nomeadamente, por tsunami de elevada magnitude.

A caracterização dos eventos de alta energia, entre os quais se encontram os tsunamis, ao longo de um intervalo temporal da ordem dos milhares de anos, é pois de importância fundamental para o estabelecimento de intervalos de recorrência mais precisos do que os eventualmente passíveis de determinar com os registos histórico ou instrumental.

Para este efeito, a equipa promoveu a colheita de um testemunho sedimentar contínuo em sapal da margem direita do estuário, que foi estudado do ponto de vista sedimentológico (textura, composição, susceptibilidade magnética, paleoecológico e mineralógico) e datado com recurso a 14C a fim de constringir no tempo eventos peculiares de inundação/sedimentação que pudessem associar-se a eventos singulares de forçamento de alta energia (de que são exemplos as cheias fluviais e as inundações marinhas produzidas por tsunamis). Este trabalho foi acompanhado de pesquisa bibliográfica, em particular sobre a história das inundações de origem tsunamigénica que afectaram as margens do estuário e de um enquadramento dos resultados obtidos nos modelos de sedimentação estabelecidos anteriormente e fundamentados em indicadores de natureza geológica.

A tarefa de distinguir e caracterizar num conjunto razoavelmente homogéneo de sedimentos a, ou as, lâminas sedimentares correspondentes a assinaturas de tsunamis não é tarefa fácil nem trivial. De facto, essa capacidade depende de um conhecimento muito detalhado das assinaturas sedimentológica, paleoecológica e composicional da "sedimentação de fundo", influenciadas ao longo do tempo pelas transformações climáticas e ambientais que caracterizam o Holocénico e que dependem, entre outros factores, das variações do nível médio do mar, do clima e da influência antrópica. Uma vez conhecido o padrão de sedimentação correspondente ao regime permanente, torna-se possível isolar secções correspondentes a singularidades (erosivas ou deposicionais) que importa caracterizar e constringir no tempo, em termos de duração e repetitividade e principalmente interpretar, no que respeita aos mecanismos de forçamento.

Nas páginas seguintes descrevem-se o modelo conceptual e os métodos escolhidos para abordar estes problemas, o enquadramento do testemunho estudado no domínio mais vasto do espaço estuarino e no contexto do conhecimento histórico sobre inundações tsunamigénicas produzidas no estuário e respectivas margens, e os resultados e conclusões alcançados até à data.

2. O Estuário do Tejo – enquadramento

O rio Tejo nasce em Espanha, possui uma bacia hidrográfica com 80630 km2 e percorre cerca de 1000 km até desaguar no Oceano Atlântico, sob a forma de um grande estuário que ocupa aproximadamente 34000 ha.

O estuário do Tejo (Fig. 1) apresenta regime de marés semi-diurno, sendo estas sentidas em zonas já bastante afastadas da foz, até à região de Muge (50km a norte de Lisboa). Do ponto de vista sedimentar e morfodinâmico, é dominado pelas marés, que distribuem a carga sólida em suspensão, e em segundo lugar pela agitação marítima de geração local, particularmente relevante na geração e manutenção de praias e restingas da sua margem sul. O controle geotectónico da região vestibular do estuário determina-lhe um corredor de comunicação com o oceano muito estreito, que abriga a região interna do estuário das condições de agitação marítima oceânicas, prevalecentes no domínio exterior; por outro lado, a inundação extensa do paleovale do Tejo desde o Tardiglaciar (~últimos 13 000 anos), gerou na cabeceira do estuário uma verdadeira armadilha sedimentar para as partículas arenosas ou mais grosseiras que constituem a carga de fundo de proveniência fluvial e ali se acumulam preferencialmente sob a forma de um delta lobado, muito dinâmico, conhecido na toponímia popular por Mouchões.

 

Localização do estuário do Tejo, domínios infratidal, intertidal e supratidal (mouchões) e indicação de praias no domínio interno (5 a 9) e externo (1 a 4).

 

Figura 1: Localização do estuário do Tejo, domínios infratidal, intertidal e supratidal (mouchões) e indicação de praias no domínio interno (5 a 9) e externo (1 a 4).

 

Entre a cabeceira e o corredor, desenvolve-se uma imensa bacia muito assoreada, pouco profunda, povoada em 35% da sua extensão por campos intertidais de vasa (rasos de maré – 10000 ha) que se articulam com sapais (1300 ha) ou praias e restingas na margem terrestre. Os fundos, aplanados e em sedimentação rápida, são recortados por canais mais ou menos profundos que requerem em alguns troços esforço de dragagem permanente, ao longo dos quais se concentram as correntes de maré, assegurando a exportação de finos para o domínio oceânico e tornando a sedimentação das margens norte e sul do domínio estuarino substancialmente diferentes do ponto de vista composicional e textural, visto que formam barreira à troca sedimentar directa entre margens, em regime de permanência. De facto, para além da carga sólida suspensa (terrígena e orgânica) e de proveniência directamente fluvial (canal do Tejo e Sorraia) que cada maré suspende na lâmina de água que inunda a totalidade do espaço estuarino, a margem sul é alimentada também pelos sistemas fluviais que se desenvolvem sobre a cobertura detrítica da Península de Setúbal, essencialmente cenozóica, cujas linhas de festo alcançam os relevos da Arrábida; a esta sedimentação adiciona-se a que resulta da erosão de relevos marginais talhados e escarpados nas mesmas formações pelas ondas de geração local. Em contraste, à margem norte afluem sistemas fluviais curtos, que se desenvolvem sobre substrato Mesozóico e Terciário, com relevo mais vigoroso e afloramento extenso de termos vulcânicos e subvulcânicos do Complexo Vulcânico de Lisboa.

3. O Estuário do Tejo – registo histórico de inundações tsunamigénicas

Os registos históricos indicam que a costa portuguesa é atingida por tsunamis de uma forma recorrente ao longo dos tempos e alguns destes são suficientemente intensos (devido à proximidade da fonte e/ou magnitude do evento gerador) para que se façam sentir dentro do estuário e impactem as suas margens. Batista e Miranda (2009) produziram a revisão mais actual do catálogo português de tsunamis, o qual, conjuntamente com o relatório da tarefa WP6.1 do projecto europeu NEAREST (Andrade et al., 2010), constituíram a base documental que suporta este item. Estes documentos foram completados com a consulta de todos os documentos originais a que foi possível aceder no âmbito deste estudo. No Anexo I reúnem-se os elementos descritivos de cada evento.

O evento tsunamigénico mais antigo e aceite como válido pelos especialistas em análise documental com impacto na Península Ibérica, remonta a 60AC (Anexo I), embora não contenha referência explícita a impactos neste estuário. Porém, reteve-se este evento no presente trabalho, atendendo a que só uma magnitude e intensidade extremamente elevadas (com forte probabilidade de ter afectado o estuário do Tejo) justificam referência pelos cronistas coevos.

Outros eventos importantes documentados no registo histórico como tendo atingido o estuário do Tejo com impactos consideráveis foram os tsunamis de 1531, 1755, 1756 (?) e 1761 (Anexo I). O evento de 1531 teve consequências graves em Lisboa e ao longo de todo o vale do Tejo; a sua fonte é ainda objecto de controvérsia mas julga-se localizada em terra, possivelmente na região de Vila Franca de Xira. Contrariamente aos eventos de 1755 e 1761, originados no mar, aquela fonte justifica o carácter muito local do tsunami de 1531, apesar da sua elevada intensidade. No que respeita a 1756, embora Batista e Miranda (2009) o retenham no catálogo, consideramos que a escassa informação disponível o indica como de carácter local e impactos reduzidos.

Já no séc. XX, dois tsunamis instrumentais (caracterizados a partir de marégrafos), 18 de Dezembro de 1926 e 25 de Novembro de 1941, apesar de apresentarem pequena magnitude, geraram empolamento e agitação peculiar das águas do Tejo, observados e descritos por testemunhas como tendo produzido comportamentos bizarros nos peixes, balanços anómalos em navios de transporte de passageiros ou choque entre embarcações atracadas. Nenhum deles produziu, porém, inundação marginal nem danos.

Desde a segunda metade do séc. XX até ao presente, outros tsunamis afectaram o estuário do Tejo mas nenhum apresentou magnitude suficiente para causar qualquer tipo de danos nas margens estuarinas nem ser percebido pelas populações (na ausência de registo maregráfico teriam passado completamente despercebidos).

4. O Estuário do Tejo – registo geológico de inundações tsunamigénicas

4.1. Introdução

Os registos históricos indicam que a zona do estuário do Tejo tem sido atingida, ao longo dos tempos, por eventos tsunamigénicos importantes. Embora alguns desses eventos tenham tido magnitudes (medidas ou estimadas) elevadas e sejam casos de estudo importantes a nível mundial (e.g. o sismo e tsunami de 1-11-1755 – Fig. 2) não foram ainda realizados muitos trabalhos para a identificação destes no registo sedimentar do estuário interno do Tejo. De facto, a abordagem geológica ao registo sedimentar permite a identificação destas ocorrências a uma escala temporal mais alargada. Nesse sentido, têm vindo a ser referidos na bibliografia (e.g. Dominey-Howes 1996; Nanayama et al. 2000; Andrade et al. 2003; Paris et al. 2007; Dawson & Stewart 2007; Switzer & Jones 2008; Chague-Goff, 2010) critérios de natureza sedimentar que permitam identificar depósitos correlativos de inundação marinha de alta energia na coluna estratigráfica.

De acordo com Andrade et al. (2003), o estuário do Tejo é um ambiente ultradissipativo devido às condições de abrigo oferecidas à entrada de ondas do domínio oceânico. Neste tipo de ambientes a propagação de um tsunami será melhor descrita como uma "maré rápida" do que como uma frente de onda não rebentada. As consequências associadas serão diferentes das que caracterizam o impacto sobre litorais expostos e, no caso particular do Tejo, a introdução de sedimentos grosseiros, exóticos, remobilizados e transportados do domínio costeiro exterior, será atenuada. É, assim, expectável que os eventos tsunamigénicos nesta área não conduzam a contraste textural significativo na sequência sedimentar "modal" do interior do estuário, visto que apenas haverá lugar a remobilização e redeposição de sedimentos autóctones, adicionados de carga em suspensão e de um sinal geoquímico de carácter mais marinho.

 

Carta de inundação marginal do estuário do Tejo (de acordo com Baptista, 1998) sobre imagem Google.

 

Figura 2: Carta de inundação marginal do estuário do Tejo (de acordo com Baptista, 1998) sobre imagem Google.

 

Como modelo conceptual, podemos admitir que a inundação tsunamigénica deste estuário implicará perturbação do regime de permanência dos campos de correntes das marés cuja actividade se prolongará no tempo por meio de seichas; criam-se assim condições temporárias para que sedimentos habitualmente exclusivos da margem norte possam ser ressuspensos e redepositados em domínios, normalmente interditos, da margem sul, nomeadamente nos prados de alto e baixo sapal daquela região, e vice-versa.

A inexistência de diferença textural na coluna sedimentar impõe que sejam utilizados indicadores adequados ao reconhecimento da assinatura de tais eventos. No caso concreto do estuário do Tejo, recorreu-se a indicadores sensíveis à proveniência e à qualidade da água, para identificação de eventos abruptos de inundação marinha: volume de susceptibilidade magnética (BMS – bulk magnetic susceptibility), concentração de elementos característicos da água do mar (Cl, I, Br, S), abundância total e diversidade de nanoplancton calcário (cocólitos), mineralogia total da fracção silto-argilosa (suspensa). Mesmo em ambientes dominados pela acção das marés, que pressupõem já alguma influência marinha na sedimentação permanente, é possível interpretar a ocorrência de um tsunami num perfil vertical devido à magnitude das variações, ao padrão de variação em pacotes sedimentares e ao espaçamento dessas variações (que se associa ao tempo, permitindo distinguir os tsunamis – raros - das tempestades – mais frequentes - uma vez que estas provocariam uma maior repetitividade no registo sedimentar).

Do ponto de vista geológico existe trabalho preliminar sobre o reconhecimento sedimentar de depósitos de tsunami na área interna do estuário do Tejo (Andrade et al., 2003), fundamentado na análise de testemunhos de sondagem de sapais da margem sul (Alfeite e Pancas). Nestes testemunhos, foram efectuadas análises sedimentológicas, paleontológicas (nanoplancton e foraminíferos), geofísicas e geoquímicas e datações 14C, embora o controle cronológico se tenha revelado pouco satisfatório. Em síntese, os resultados mostram congruência nos perfis de variação vertical dos atributos geoquímicos, conteúdo e diversidade de cocólitos e foraminíferos e BMS. A respectiva interpretação sugere sedimentação vasosa, texturalmente muito homogénea, em ambiente salobro de baixa energia e correspondendo na base à região superior de um raso de maré em agradação vertical e evoluindo para um baixo e alto sapal até à superfície topográfica actual. Este padrão de sedimentação monótona foi perturbado por alguns eventos singulares de curta duração, sugerindo episódios de inundação marinha com expressão regional, à escala do estuário, em que o enriquecimento em plâncton marinho é correlativo de ressuspensão e transporte transversal, para a margem sul, de portadores ferromagnéticos originalmente restritos à margem norte e concentrados em espécies minerais peculiares (e.g. magnetite, ilmenite, augite) característicos do Complexo Vulcânico de Lisboa (CVL). A contaminação da margem sul por estes minerais implica uma perturbação significativa mas temporária do campo de correntes associado com uma entrada anómala de água marinha, correlacionável com eventos tsunamigénicos. Nesse trabalho, assumiu-se uma taxa de sedimentação uniforme de 6 a 8mm/ano para a coluna sedimentar do Afeite, o que faria coincidir a perturbação mais recente com meados do séc. XVIII (evento de 1755) e uma segunda perturbação, mais profunda, afecta a um intervalo temporal entre finais do séc. XVI e o séc. XVII (evento de 1531). Em Pancas foi ainda identificado um terceiro evento ainda mais antigo, cuja idade se reportaria a meados do séc. XIV (ca. 1350?).

Estes resultados parecem suportar o modelo conceptual acima descrito, que foi agora testado no âmbito do presente projecto na margem norte (sapal do Trancão). Em condições ideais, esperar-se-ia encontrar ali um perfil de variação vertical dos atributos composicionais (sensíveis à proveniência) e paleoecológicos (associados a inundação marinha) congruentes com os episódios de inundação marinha abrupta.

4.2. Sapal do Trancão

A área amostrada na margem norte situa-se no distrito de Lisboa, concelho de Loures e está representada na folha 417 da carta militar de Portugal do Instituto Geográfico do Exército na escala 1/25.000 (1993) e, ainda, na Carta Geológica dos Arredores de Lisboa, folha 2 (34B) – Loures, na escala 1/50.000 (1981). Corresponde a uma mancha de alto sapal bem preservada na margem esquerda do rio Trancão, onde este desemboca no estuário do Tejo (Fig. 3).

O rio Trancão tem cerca de 25km de comprimento e apresenta uma bacia hidrográfica com, aproximadamente, 292km2 (Fig. 3). Essa bacia drena áreas onde afloram terrenos que datam do Jurássico superior ao Holocénico, incluindo o CVL e o Oligocénico, afloramentos com relevância particular para este trabalho.

 

A. Enquadramento geográfico da área de estudo e localização da sondagem F-TRA. B. Delimitação da bacia hidrográfica do rio Trancão e principais unidades litoestratigráficas que influenciam o volume de susceptibilidade magnética dos sedimentos.

 

Figura 3: A. Enquadramento geográfico da área de estudo e localização da sondagem F-TRA. B. Delimitação da bacia hidrográfica do rio Trancão e principais unidades litoestratigráficas que influenciam o volume de susceptibilidade magnética dos sedimentos.

 

Neste sapal efectuou-se uma sondagem mecânica recorrendo a um amostrador Van der Horst, com cota de boca a 2,36m acima do nível médio do mar (NM) e que atingiu profundidade de 4.40m (2,03m abaixo do NM). Os testemunhos foram acondicionados em meias canas de PVC e protegidos com película aderente de modo a preservar as suas características originais.

No laboratório, o tarolo de sondagem foi subdividido longitudinalmente e uma das metades integralmente sub-amostrada a cada 2cm. As amostras assim obtidas foram submetidas a ensaios de determinação do teor em matéria orgânica (por calcinação a 500ºC), em carbonato de cálcio (método gasométrico, calcímetro Eijkelkamp) e granulometria por difractometria laser (Malvern Mastersizer Hydro 2000MU). Na outra metade, mediu-se o volume de susceptibilidade magnética, em amostras discretas e recorrendo a um aparelho Bartington MS2B na Universidade de St. Andrews, Escócia. Realizaram-se ainda duas datações AMS de 14C (base da sondagem - 4.38-4.40m - e meio da sondagem - 1,98-2,00m), no laboratório da Beta Analytic Inc. (EUA). Em ambas os casos datou-se a matéria orgânica particulada. As amostras foram ainda analisadas quanto ao seu conteúdo em nanoplancton calcário. Esse estudo incidiu sobre a abundância total e diversidade de cocólitos ao longo da coluna sedimentar. Finalmente, enviaram-se (Instituto Superior de Agronomia, UTL) para estudo mineralógico por difractometria de RX um conjunto de amostras representativo das diferentes unidades magnéticas identificadas, a fim de auxiliar a interpretação da susceptibilidade magnética e esclarecer proveniência e padrões de dispersão. Os resultados desta análise ainda não estão disponíveis.

Na figura 4 apresenta-se um log esquemático correspondente à descrição macroscópica da sondagem. Tal como no caso da margem sul, a coluna sedimentar é bastante homogénea, sendo composta essencialmente por vasas castanhas, contendo fibras vegetais (mais abundantes no topo), palhetas de mica e fragmentos de bivalves e gastrópodes de concha fina.

O rácio entre sedimentos grosseiros (fracção> 63 µm) e finos (fracção silto-argilosa, < 63 µm) tende genericamente a diminuir da base para o topo, até 0.30m abaixo da superfície topográfica (Fig. 5). É nos 3m mais profundos, que se observam as maiores variações neste parâmetro e onde há maiores diferenças para a curva de medianas móveis; parte destas variações deve-se à presença de bioclastos carbonatados mas outra parte está ainda em investigação. A capa mais superficial de sedimento corresponde a uma anomalia positiva deste rácio relacionada uma vez mais com a presença de bioclastos carbonatados e macrorestos de vegetais.

Relativamente à matéria orgânica, este parâmetro apresenta concentrações entre 5 e 8% até 1.60m abaixo da superfície (+0.76 NM) (Fig. 6) compatível com um raso de maré em agradação. Para o topo e até ~0.50m abaixo da superfície (+1.86 NM) o teor aumenta até 18% em resultado da presença de vegetação halófita de baixo e alto sapal. A parte mais superficial da sondagem apresenta uma diminuição entre 0.10 e 0.40m de profundidade (8%) e o máximo de 24% correspondendo à trama de estruturas vegetais e sedimento que formam superfície actual. No 1.5m mais superficial observam-se as maiores variações entre o perfil de MO e o de medianas móveis.

 

Log litológico esquemático da sondagem F-TRA realizada no sapal do Rio Trancão.

 

Figura 4: Log litológico esquemático da sondagem F-TRA realizada no sapal do Rio Trancão.

 

No que respeita ao teor em carbonato de cálcio, que se associa essencialmente à presença de bioclastos, as variações não são muito acentuadas (Fig. 7). Desde a base da sondagem até 2.70m observam-se teores reduzidos, entre 2 e 4%, que aumentam para valores no intervalo 4-6% até 2.10 m abaixo da superfície. Na secção entre 2.10 e 0.60m, o teor em carbonato de cálcio diminui (3-5%) e daqui até à superfície diminui novamente, até se anular na camada mais superficial, provavelmente em associação com a decomposição da manta morta e respiração das estruturas vegetais.

 

Variação do rácio grosseiros/finos com a profundidade, na sondagem estudada.

 

Figura 5: Variação do rácio grosseiros/finos com a profundidade, na sondagem estudada.

 

 

Variação do teor de matéria orgânica com a profundidade, na sondagem estudada.

 

Figura 6: Variação do teor de matéria orgânica com a profundidade, na sondagem estudada.

 

Relativamente ao volume de susceptibilidade magnética a sondagem apresenta 3 sectores distintos (Fig. 8). Desde a base até 2.10m de profundidade o volume de susceptibilidade magnética aumenta, com maior intensidade acima de 3.10m. A partir de 2.10m de profundidade, observa-se uma sucessão de eventos de incremento e diminuição da BMS, com mínimos a cerca de 2.0, 1.60 e 0.90m abaixo da superfície (sendo este último o mínimo encontrado em toda a sondagem) e máximos a 1.70 e 1.40m. Entre 0.90 e 0.40m de profundidade a BMS mantém-se aproximadamente constante; nos 0.40m superficiais assiste-se a um aumento significativo deste parâmetro associado à maior variabilidade entre amostras.

 

Variação do teor de carbonato de cálcio com a profundidade, na sondagem estudada.

 

Figura 7: Variação do teor de carbonato de cálcio com a profundidade, na sondagem estudada.

 

 

Variação do volume de susceptibilidade magnética com a profundidade, na sondagem estudada.

 

Figura 6: Variação do volume de susceptibilidade magnética com a profundidade, na sondagem estudada.

 

No que diz respeito ao teor em cocólitos (não remobilizados), observa-se uma diminuição desde a base até 2.40m de profundidade (Fig. 9). A partir de 2.40m, está presente uma sucessão de eventos de incremento e diminuição do teor destas partículas, com mínimos a 1.90 e 1.50m e máximos a 2.30 e 1.70m. Acima de 1.50m, o conteúdo em nanoplacton é residual, com pequenos incrementos a 0.90, 0.68 e 0.44m.

Os resultados da datação por 14C na sondagem obtidos até à data (Tabela 1) sugerem uma idade plistocénica para a base do testemunho. Este resultado é incongruente com o sinal marinho obtido na base da sondagem a partir do nanoplancton, visto que aquela datação é contemporânea de um NMM 120m abaixo do actual; em consequência, este resultado foi descartado, considerando-se apenas como válida a datação de 1280±40 BP obtida a cerca de 2.0m de profundidade. Seleccionaram-se mais duas amostras para datação isotópica, cujos resultados se aguardam e permitirão constringir melhor no tempo os diferentes episódios de sedimentação identificados, tarefa não possível de concretizar neste momento. Como mero exercício de exploração, a datação válida foi utilizada para determinar uma taxa de sedimentação, que ronda os 0.15 a 0.17cm/ano para os 2m mais superficiais, permitindo uma abordagem preliminar à cronologia de alguns eventos ocorridos no último milénio. De acordo com este valor, o testemunho foi subamostrado com resolução de ordem decadal e envolverá os últimos 5000 anos.

 

Variação da abundância total de cocólitos autóctones com a profundidade, na sondagem estudada.

 

Figura 9: Variação da abundância total de cocólitos autóctones com a profundidade, na sondagem estudada.

 

 

Tabela com os dados referentes às datações realizadas, na sondagem estudada

 

Tabela 1: Tabela com os dados referentes às datações realizadas, na sondagem estudada

 

Os dados sedimentológicos, paleoecológicos, geofísicos e cronológicos obtidos do estudo da sondagem realizada no sapal do Trancão, embora ainda incompletos, permitem uma interpretação preliminar das condições ambientais que prevaleceram em regime de permanência nesta área e das perturbações a que foi sujeito. Em traços gerais, o local em estudo evoluiu em região marginal do estuário, de baixa profundidade e baixo hidrodinamismo, com condições energéticas que apenas permitiam deposição de vasas. Esta coluna sedimentar representa acumulação característica do enchimento estuarino, desde o máximo transgressivo holocénico representado na base por um sinal marinho mais evidente e, em congruência, baixa susceptibilidade magnética. Ao longo do tempo assiste-se a uma diminuição da influência marinha e instalação de fácies salobra, acompanhando a agradação vertical de um espaço desde subtidal a intertidal inferior (raso de maré) e depois superior (sapal). Os perfis de variação vertical dos vários indicadores estudados mostram oscilações de amplitude e passo temporal variados, sobreimpostas a esta tendência geral, cuja interpretação se encontra em curso.

Para efeitos específicos deste relatório e sem prejuízo de aperfeiçoamento e revisão posteriores, o troço que oferece mais segurança em termos de interpretação corresponde ao 1m superficial, caracterizado por mínima influência da transgressão holocénica e, por essa razão, mais favorável ao reconhecimento de eventos singulares como os tsunamis, tempestades, cheias da grande bacia do Tejo e descargas de ponta do Rio Trancão. A sedimentação mais antiga retém assinatura forte da transgressão holocénica, dificultando o reconhecimento, neste local, daquele tipo de perturbações. Para a identificação de eventos mais antigos, será necessário deslocar e multiplicar o esforço de sondagem para montante dos sistemas estuarino e afluentes, procurando amostrar os terrenos que seriam margens à data desses eventos. Esta tarefa está para além da possibilidade de concretização oferecida por este projecto, mas constitui uma linha de investigação que a equipa prossegue e prosseguirá no futuro.

Neste troço mais superficial, os máximos na abundância de cocólitos autóctones aos 0.90, 0.68 e 0.44m de profundidade, claramente sobressalientes dos valores de fundo, podem indicar eventos de invasão do estuário por água marinha. A estas profundidades observam-se mínimos na susceptibilidade magnética, indicando menor influência da bacia hidrográfica do Rio Trancão, produzida por retenção sedimentar a montante, induzida por sobreelevação temporária do nível de base e diluição da carga autóctone por sedimentos mais pobres em ferromagnéticos. Esta descrição é semelhante em conceito e interpretação à que foi apresentada anteriormente para sugerir assinaturas sedimentares de tsunamis em sapais da margem sul; extrapolando para o Trancão a taxa de sedimentação disponível, obtêm-se para estes níveis idades inferidas de 1350-1420 DC, 1500-1550 DC e 1660-1690 DC, congruentes com os eventos identificados na margem sul. Os dois intervalos mais recentes têm correspondência no registo histórico (1531 e 1755) e o mais antigo sugere a existência de um evento de natureza semelhante mas do qual não existirá documentação.

5. Intervalo de recorrência

Tendo em conta o registo histórico assumido acima como válido para a caracterização do Risco de Inundação marginal do Estuário do Tejo, resultam intervalos de recorrência da ordem dos 400 anos e 160 anos consoante o período analisado inclui ou exclui o evento de 60 AC, respectivamente. Por outro lado, parte destes eventos foram de carácter local (1531) enquanto os restantes tiveram dimensão transatlântica.

De acordo com a interpretação do registo geológico aqui apresentada, pode deduzir-se um intervalo de recorrência da ordem dos 220 anos para eventos abruptos de inundação marinha no estuário do Tejo, ocorridos desde o séc. XIII e com expressão suficiente para perturbar o registo geológico. Cabe aqui notar que um destes eventos é local (1531), outro transatlântico (1755) e outro foi apenas inferido a partir do registo geológico (1350), desconhecendo-se fonte, magnitude e intensidade. Neste contexto, caracterizado por fontes tsunamigénicas variadas, o significado destes intervalos de recorrência deve ser encarado como uma primeira abordagem, indicativa, e utilizado com o máximo de prudência.

Finalmente, uma nota de enquadramento destes resultados no conhecimento actual acerca da recorrência característica de eventos tsunamigénicos (maioritariamente gerados por sismos submarinos) no Golfo de Cádis e capazes de impactar significativamente todo o litoral Atlântico do Marrocos e oeste Ibérico, que se estima em 1200-1500 anos a partir do registo geológico costeiro e da ordem de 1800 anos a partir do registo geológico da margem continental e envolvendo os últimos 7 a 10000 anos de sedimentação. Esta discrepância ilustra claramente o carácter incipiente da investigação e conhecimento consolidado sobre esta temática e a importância do investimento necessário para fundamentar com maior objectividade, estimativas de risco.

6. Bibliografia

Andrade, C., Freitas, M. C., Miranda, J. M., Baptista, M. A., Cachão, M., Silva, P. and Munhá, J., 2003. Recognizing possible tsunami sediments in the ultradissipative environment of the Tagus estuary (Portugal). Coastal Sediments'03 – The 5th Int. Symp. on Coastal Engineering and Science of Coastal Sediment Processes, 18-23 May, Clearwater Beach, Florida, CD-ROM, 14 pp.

Andrade, C., Freitas, M. C., Lario, J. & Vigliotti, L. (2010) - D21: Report on onshore tsunami records. Deliverable D21, Project NEAREST - "Integrated observations from NEAR shore sourcES of Tsunamis: towards an early warning system". Unpublished Technical Report, 72 p.

Baptista, M. A., 1998. Génese propagação e impacte de tsunamis na Costa Portuguesa. Dissertação apresentada à Universidade de Lisboa para a obtenção do grau de Doutor em física, na especialidade de Geofísica, Lisboa, pp. 213.

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Barreiro, F.J., 1838. Memoria sobre os pesos e medidas de Portugal, Espanha, Inglaterra, e França, que se empregão nos trabalhos do Corpo de Engenheiros e da Arma de Artilharia; e noticia das principais medidas da mesma espécie, usadas para fins militares em outras nações. Tipografia da Academia Real das Sciencias, Lisboa, 80p.

Calmete-Beauvoisin [19--]. Plan de Lisbonne son port, ses redes et ses environs avec une petite carte routiére du Portugal [Material cartográfico / par Le Cher. Calmet-Beauvoisin. - Escala [ca. 1:52000]. - [Paris] : Lith. de Delarue, [19--]. - 1 carta : imp. em papel, com traçados a cores ; 87x49 cm http://purl.pt/4007.

Campos, I. M. B. de, 1998. O grande terramoto (1755). Parceria, Lisboa, 693 p. Chagué-Goff, C., 2010. Chemical signatures of palaeotsunamis: A forgotten proxy? M. Geol., Vol. 271 (1-2), pp. 67-71.

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Fonseca, J. D., 2004. 1755 – O terramoto de Lisboa. Argumentum, Lisboa, 139 p.

Marques, M.S., 2001. Cartografia antiga: tabela de equivalências de medidas: cálculo de escalas e conversão de valores de coordenadas geográficas. 1ª edição, Biblioteca Nacional, Lisboa, 104p.

Mendonça, J. J. M., 1758. Historia universal dos terramotos, que tem havido no mundo, de que ha noticia, desde a sua creação até ao seculo presente: com uma narraçam individual do terramoto do primeiro de Novembro de 1755, e noticia verdadeira dos seus effeitos em Lisboa, todo o Portugal, Algarves, e mais partes da Europa, Africa, e America, aonde se estendeu: E huma dissertação phisica sobre as causas geraes dos terramotos, seus effeitos, differenças, e prognosticos; e as particulares do ultimo. Na offic. de Antonio Vicente da Silva, Lisboa, 272p.

Mineiro, A. C., 2005. A propósito das medidas de remediação e da opção política de reedificar a cidade de Lisboa sobre os seus escombros, após o sismo de 1 Novembro de 1755: reflexões. Em: FLAD e Público (eds), O grande terramoto de Lisboa, Vol. 1, Descrições, Tipografia Peres, SA., pp. 189-219.

Nanayama, F., Shigeno, K., Satake, K., Shimokawa, K., Koitabashi, S., Miyasaka, S. and Ishii, M., 2000. Sedimentary differences between the 1993 Hokkaido-nansei-oki tsunami and the 1959 Miyakojima typhoon at Taisei, SW Hokkaido, northern Japan. Sed. Geol., 135(1-4): 255-264.

Nozes, J., 1990. O terramoto de 1755 - Testemunhos Britânicos: Colectânea de relatos do séc. XVIII. Lisóptima Edições, Lisboa, 227p.

Oliveira, C.S., 2005. Descrição do terramoto de 1755, sua extensão, causas e efeitos. O sismo. O tsunami. O incêndio. Em: FLAD e Público (eds), O grande terramoto de Lisboa, Vol. 1, Descrições, Tipografia Peres, SA., pp. 23-87.

Paris, R., Lavigne, F., Wassmer, P. and Sartohadi, J., 2007. Coastal sedimentation associated with the 26-12-2004 tsunami in Lhok Nga, W Banda Aceh (Sumatra, Indonesia). M. Geol., 238(1-4): 93-106.

Sousa, F. L. P., 1928. O Terremoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um estudo demográfico: Volume III - Distrito de Lisboa. Tipografia do comercio, Lisboa, 949p.

Souza (1875) – Planta da cidade de Lisboa [Material cartográfico] / grav. por J. F. M. Palha. - Escala [ca. 1:15000], 0,667 por 10000.. - [S.l.] : Joäo Carlos Bon de Souza, 1875. - 1 planta : p&b ; 33,60x72,80 cm em folha de 38,70x76,30 cm.

Switzer, A. D., Jones, B. G., 2008. Large-scale washover sedimentation in a fresh water lagoon from the southeast Australian coast: sea-level change, tsunami or exceptionally large storm? The Holocene, vol. 18, no. 5, pp. 787-803.

 

 

ANEXO 1

Caracterização de eventos holocénicos de alta energia no estuário do Tejo

Recorrência de tsunamis no Estuário do Tejo

Registos Históricos

Autores:

Maria da Conceição Freitas1, 2, César Andrade1, 2, Tiago Silva1

 

1 – Centro de Geologia da Universidade de Lisboa (CeGUL)

2 - Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Neste anexo agrupam-se todos os registos recolhidos da bibliografia analisada a que foi possível aceder no âmbito deste projecto. Esses registos foram ordenados segundo a cronologia dos eventos que lhe deram origem (do mais antigo para o mais recente) e depois organizados por critério geográfico. Para cada local inclui-se um mapa indicativo da área a que os registos se referem.

Alguns dos relatos referem-se a locais que hoje em dia não apresentam a mesma toponímia ou cuja localização se alterou devido ao crescimento urbano; deste modo foi necessário recorrer a alguns mapas mais antigos (Figuras 1 e 2) de modo a poder definir com maior precisão as zonas referidas nos relatos.

 

Mapa da zona do estuário do Tejo, já do século XX, contendo algumas das localidades referenciadas nos relatos recolhidos e transcritos abaixo. Adaptado de Calmet-Beauvoisin (19--).

 

Figura 1: Mapa da zona do estuário do Tejo, já do século XX, contendo algumas das localidades referenciadas nos relatos recolhidos e transcritos abaixo. Adaptado de Calmet-Beauvoisin (19--).

 

Mapa de maior pormenor da zona de Lisboa do séc. XIX. Pode observar-se a zona da praia da Junqueira (referida nos relatos históricos recolhidos e marcada neste mapa com uma elipse vermelha). Adaptado de Souza (1875).

 

Figura 2: Mapa de maior pormenor da zona de Lisboa do séc. XIX. Pode observar-se a zona da praia da Junqueira (referida nos relatos históricos recolhidos e marcada neste mapa com uma elipse vermelha). Adaptado de Souza (1875).

 



Evento 60 AC

Local: Costa Portuguesa (Geral)

Transcrição:

"Por estes annos succedeu nas Costas de Portugal, e Galiza, hum Terremoto horrivel, que arruinou muitos edificios, e lugares inteiros. O mar excedendo os seus ordinarios limites cobriu muitas terras, descobrindo tambem outras o retiro das suas agoas. A gente se retirou a habitar nos campos, e montanhas." (Mendonça, 1758) (a)

Observações:

(a) Transcrito também em Baptista e Miranda, 2009

Referências:

Baptista, M.A., Miranda, J.M., 2009. Revision of the portuguese catalog of tsunamis. Natural Hazards and Earth System Sciences, 9, pp.25-42

Mendonça, J. J. M., 1758. Historia universal dos terramotos, que tem havido no mundo, de que ha noticia, desde a sua creação até o seculo presente: com uma narraçam individual do terramoto do primeiro de Novembro de 1755, e noticia verdadeira dos seus effeitos em Lisboa, todo Portugal, Algarves, e mais partes da Europa, Africa, e America, aonde se estendeu: E huma dissertação phisica sobre as causas geraes dos terramotos, seus effeitos, differenças, e prognosticos; e as particulares do ultimo. Na offic. de Antonio Vicente da Silva, Lisboa, 272p.

 

 



Evento 26-01-1531

Local: Tejo (Geral)

Transcrição:

"O Tejo descobriu o seu leito correndo as agoas para as margens. No mar se se perderão Navios com o grande movimento das suas agoas. Garibai[1], diz, que foram sorvidos, o que poderia suceder com alguma abertura da terra." (Mendonça, 1758) (a)

"[. . . ] in the sea the tempest was so great that destroyed and broke all ships staying in Lisbon harbor, some say that the Tagus river opened by its middle splitting its waters into a pathway and showing the sand bed" (Couto, 1778, in Baptista e Miranda, 2009) (a)

"[. . . ] the ships, sailors said, seemed to go in the sky; and (then) against the rocks; and the river open by its middle and close again" ( Osório, 1919, in Baptista e Miranda, 2009)

"[. . . ] Tagus with its violent tide fluxes and the furious agitation of the waves, rose in such a way that it submerged many ships, one claims that it opened in the middle of its waters, showing the sand of its bottom [. . . ]" (Codex, 8009, in Baptista e Miranda, 2009) (a)

"[. . . ] caravels at sea, fishing at 40 fathom[2] depth, found themselves in dry land". "[. . . ] an awful earth quake with much roar from the sea, and rivers, which came out of their reach, so that, the Tagus, that divided into several branches, some islets, which we call lezirias [. . . ]" (Oliveira, sem data, in Baptista e Miranda, 2009)

"The sea awfully inflated swallowed a number of vessels. Tagus water, violently pushed by sea flood, spread above the margins and showed the dry riverbed" (Perrey, 1847, in Baptista e Miranda, 2009)

Observações:

[1] Esteban de Garibay y Zamalloa, historiador espanhol.

[2] Fathom (braça) - medida utilizada para medir profundidades, equivalente a 1.83m (Marques, 2001), ou seja os barcos estariam em águas com 73m de profundidade.

(a) Transcrito também em Baptista, 1998.

Referências:

Baptista, M.A., 1998. Génese propagação e impacte de tsunamis na Costa Portuguesa. Dissertação apresentada à Universidade de Lisboa para a obtenção do grau de Doutor em Física, na especialidade de Geofísica, Lisboa, pp.213.

Baptista, M.A., Miranda, J.M., 2009. Revision of the portuguese catalog of tsunamis. Natural hazards and earth system sciences, 9, pp.25-42.

Marques, M.S., 2001. Cartografia antiga: tabela de equivalências de medidas: cálculo de escalas e conversão de valores de coordenadas geográficas. 1ª edição, Biblioteca Nacional, Lisboa, 104p.

Mendonça, J. J. M., 1758. Historia universal dos terramotos, que tem havido no mundo, de que ha noticia, desde a sua creação até o seculo presente: com uma narraçam individual do terramoto do primeiro de Novembro de 1755, e noticia verdadeira dos seus effeitos em Lisboa,todo Portugal, Algarves, e mais partes da Europa, Africa, e America, aonde se estendeu: E huma dissertação phisica sobre as causas geraes dos terramotos, seus effeitos, differenças, e prognosticos; e as particulares do ultimo. Na offic. de Antonio Vicente da Silva, Lisboa, 272p.

Mapa:

 

 

 



Evento 1-11-1755

 

Locais descritos abaixo, relativamente ao evento de 1755

 

Locais descritos abaixo, relativamente ao evento de 1755.

 

Local:

Costa Portuguesa/ Tejo (Geral) (Local 8)

Transcrições:

"A estes impulsos da terra se retirou o mar, deixando nas suas margens ver o fundo ás suas agoas nunca de antes visto, e encapellando-se estas em altissimos montes, se arrojarão pouco depois sobre todas as povoaçoens maritimas com tanto impeto, que parecia quererem sumergillas extendendo os seus limites. Tres irupçoens mayores, álem de outas menores, fez o mar contra a terra, destruindo muitos edificios, e levando muitas pessoas involtas nas suas agoas." (Mendonça, 1758) (a) (b) (c)

"Diz-se que o rio subiu de uma maneira fantástica e baixou várias vezes sucessivamente; de uma vez ameaçando inundar as partes mais baixas da cidade e logo depois deixando os navios quase encalhados, mostrando rochas que nunca antes tinham sido vistas." (Nozes, 1990)

"(...) enquanto a multidão estava reunida próximo da margem do rio, a água subiu a uma altura tal que ultrapassou e inundou a parte baixa da cidade;" (Nozes, 1990) (d)

"Os barqueiros ao serem sacudidos dos barcos para terra pelo súbito avanço da água, saltaram para a margem para se salvarem, sendo os seus barcos imediatamente levados pelo mar em retirada, que vazou e encheu, vazou e encheu, em quatro ou cinco minutos. Os navios perto da margem e que numa maré baixa tocam no fundo, ficaram, num instante, a flutuar um minuto ou dois deixados em seco e de novo postos a flutuar, sendo arremessados uns contra os outros; a maré tornou-se tão rápida para leste e para oeste (...)" (Nozes, 1990) (d)

"Ao primeiro Tremor de terra se seguio imediatamente no mar huma extraordinaria alteração e crescimento de agoas (...) O certo é que em Cascaes Setubal Peniche e nos Algarves morrerão muitos afogados e em Lisboa sahindo dos seus limites e entrando pella terra dentro mais de cinco Estadios[1] romperão as ondas algumas Pontes desfizerão muros e arojarão a Praya madeiras de desmarcada grandeza." (Sousa, 1928)

Observações:

[1] Um estádio equivale a 158.73m (Marques, 2001), referindo-se a uma inundação de cerca de 800m.

(a) Citação também transcrita em Sousa, 1928.

(b) Citação também transcrita em Baptista e Miranda, 2009.

(c) Transcrito também em Baptista, 1998.

(d) Citação também transcrita em Fonseca, 2004.

Referências:

Baptista, M.A., 1998. Génese propagação e impacte de tsunamis na Costa Portuguesa. Dissertação apresentada à Universidade de Lisboa para a obtenção do grau de Doutor em Física, na especialidade de Geofísica, Lisboa, pp.213.

Baptista, M.A., Miranda, J.M., 2009. Revision of the portuguese catalog of tsunamis. Natural hazards and earth system sciences, 9, pp.25-42.

Fonseca, J. D., 2004. 1755 - O terramoto de Lisboa. Argumentum, Lisboa, 139 p.

Marques, M.S., 2001. Cartografia antiga: tabela de equivalências de medidas: cálculo de escalas e conversão de valores de coordenadas geográficas. 1ª edição, Biblioteca Nacional, Lisboa, 104p.

Mendonça, J. J. M., 1758. Historia universal dos terramotos, que tem havido no mundo, de que ha noticia, desde a sua creação até o seculo presente: com uma narraçam individual do terramoto do primeiro de Novembro de 1755, e noticia verdadeira dos seus effeitos em Lisboa,todo Portugal, Algarves, e mais partes da Europa, Africa, e America, aonde se estendeu: E huma dissertação phisica sobre as causas geraes dos terramotos, seus effeitos, differenças, e prognosticos; e as particulares do ultimo. Na offic. de Antonio Vicente da Silva, Lisboa, 272p.

Nozes, J., 1990. O Terramoto de 1755 - Testemunhos Britânicos: Colectânea de relatos do séc. XVIII. Lisóptima Edições, Lisboa, 277p.

Sousa, F. L. P., 1928. O Terremoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um estudo demográfico: volume III - Distrito de Lisboa. Tipografia do comercio, Lisboa, 949p.

Mapa:

 

 


Local:

Castelo do Bugio (Local 3)

Transcrições:

" O castelo do Bugio ficou tão inundado pela água que a guarnição disparou vários tiros em sinal de socorro e foi obrigada a retirar-se para a parte superior da torre. Segundo o meu melhor cálculo, a água subiu cerca de dezasseis pés[1] em cerca de cinco minutos e baixou no tempo por três vezes, e às duas a maré voltou ao seu curso natural." (Nozes, 1990) (a) (b) (c)

Observações:

[1] Um pé inglês equivale a 30,49cm (Barreiro, 1838; Marques, 2001); a onda teria cerca de 4,87m.

(a) Também referenciado em Oliveira, 2005.

(b) Também referenciado em Mineiro, 2005.

(c) Também transcrito em Fonseca, 2004.

Referências:

Barreiro, F.J., 1838. Memoria sobre os pesos e medidas de Portugal, Espanha, Inglaterra, e França, que se empregão nos trabalhos do Corpo de Engenheiros e da Arma de Artilharia; e noticia das principais medidas da mesma espécie, usadas para fins militares em outras nações. Tipografia da Academia Real das Sciencias, Lisboa, 80p.

Fonseca, J. D., 2004. 1755 – O terramoto de Lisboa. Argumentum, Lisboa, 139 p.

Marques, M.S., 2001. Cartografia antiga: tabela de equivalências de medidas: cálculo de escalas e conversão de valores de coordenadas geográficas. 1ª edição, Biblioteca Nacional, Lisboa, 104p.

Mineiro, A.C., 2005. A propósito das medidas de remediação e da opção política de reedificar a Cidade de Lisboa sobre os seus escombros, após o sismo de 1 Novembro de 1755: reflexões. Em: FLAD e Público (eds), O grande terramoto de Lisboa, Vol.1, Descrições, Tipografia Peres, SA., pp. 189-219.

Nozes, J., 1990. O Terramoto de 1755 - Testemunhos Britânicos: Colectânea de relatos do séc. XVIII. Lisóptima Edições, Lisboa, 277p.

Oliveira, C.S., 2005. Descrição do terramoto de 1755, sua extensão, causas e efeitos. O sismo. O tsunami. O incêndio. Em: FLAD e Público (eds), O grande terramoto de Lisboa, Vol.1, Descrições, Tipografia Peres, SA., pp. 23-87.

Mapa:

 

 


Local:

Cascais (Alto-do-Poço-Velho) / Ermida da N. S.ra dos Inocentes (Local 1)

Transcrições:

"(...); que o mar entrára pela villa, chegando a levar os barcos ao alto do poço velho. Os habitantes, cheios do maior terror, fizeram voto a Nossa Senhora dos Innocentes, para que os livrasse d'aquele maior perigo, e não tendo o mar cgegado a entrar na ermida da dita invocação, parando proximo d'ella." (Sousa, 1928)

"« e no mesmo tempo entrou o mar pela vila dentro e chegou até ao Poço Velho e Santa Clara o qual fez grave estrago pelas ruas onde passou, e na ribeira fez despedaçar todas as embarcações e barco de pescas.»" (Sousa, 1928)

"O mar, sahindo do seu leito, arremessou os barcos da bahia ao Alto-do-Poço-Velho, a maior eminencia da villa!" (Sousa, 1928)

Referências:

Sousa, F. L. P., 1928. O Terremoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um estudo demográfico: volume III - Distrito de Lisboa. Tipografia do comercio, Lisboa, 949p.

Mapa:

 

 


Local:

Torre de S. Julião (Local 2)

Transcrições:

" Que houve momentos em que o mar recuára a ponto de se ver grandissima extensão de praia até á torre de S. Julião." (Sousa, 1928)

Referências:

Sousa, F. L. P., 1928. O Terremoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um estudo demográfico: volume III - Distrito de Lisboa. Tipografia do comercio, Lisboa, 949p.

Mapa:

 

 


Local:

Cruz Quebrada (Local 5)

Transcrições:

"O mar levou um homem que nunca mais apareceu. Um quarto de hora pouco mais ou menos, depois dos tres movimentos de terra, estando a maré vasia, o mar entrou tres vezes pela terra «pelo mesmo espaço com que foram os movimentos de terra e com tanto impeto que botou abaixo as guardas da ponte da Cruz Quebrada, limite desta freguesia, do meio para a parte sul, e não obstante serem pedras grandes, ficaram a maior parte deitadas sobre a ponte, e algumas levou bastante distancia pela terra dentro, e segundo o baixamar em que estava, levantou, segundo dizem algumas pessoas, bons trinta palmos[1]»." (Sousa, 1928) (a)

Observações:

[1] Um palmo português equivale a 22cm (Barreiro, 1838; Marques, 2001); deste modo a onda teria 6,60m.

(a) Também transcrito em Fonseca, 2004.

Referências:

Barreiro, F.J., 1838. Memoria sobre os pesos e medidas de Portugal, Espanha, Inglaterra, e França, que se empregão nos trabalhos do Corpo de Engenheiros e da Arma de Artilharia; e noticia das principais medidas da mesma espécie, usadas para fins militares em outras nações. Tipografia da Academia Real das Sciencias, Lisboa, 80p.

Fonseca, J. D., 2004. 1755 – O terramoto de Lisboa. Argumentum, Lisboa, 139 p.

Marques, M.S., 2001. Cartografia antiga: tabela de equivalências de medidas: cálculo de escalas e conversão de valores de coordenadas geográficas. 1ª edição, Biblioteca Nacional, Lisboa, 104p.

Sousa, F. L. P., 1928. O Terremoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um estudo demográfico: volume III - Distrito de Lisboa. Tipografia do comercio, Lisboa, 949p.

Mapa:

 

 


Local:

Belém (Local 6)

Transcrições:

"Comtudo, o livro 4.º os obitos da freguesia de N. S.ra da Ajuda regista tres pessoas mortas em Belem, arrebatadas pelo mar que as foi lança-las afogadas, na praia da Junqueira, (tanscrito atraz, p. 619). A corrente era, portanto, junto a esta praia, do mar para o interior do rio." (Sousa, 1928)

Referências:

Sousa, F. L. P., 1928. O Terremoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um estudo demográfico: volume III - Distrito de Lisboa. Tipografia do comercio, Lisboa, 949p.

Mapa:

 

 


Local:

Estrada para Belém (Ajuda) (Local 6)

Transcrições:

"(...) embora, mais tarde, várias pessoas me garantissem que, quando seguiam a cavalo na grande estrada que conduz a Belém, que tem um lado exposto ao rio, as águas subiram com tanta rapidez que foram obrigados a galopar com toda a velocidade em direcção aos terrenos superiores[1] para evitar serem arrastados." (Nozes, 1990) (a) (b)

Observações:

[1] Provavelmente fugiram em direcção à zona onde é hoje a Ajuda.

(a) Também transcrito em Baptista et al., 2006a.

(b) Também transcrito em Fonseca, 2004.

Referências:

Baptista, M.A., Soares, P.M., Miranda, J.M., Luis, J.F., 2006a. Tsunami propagation along the Tagus estuary (Lisbon, Portugal) – preliminary results. Science of tsunami hazards, Vol. 24, No.5, pp.329-338.

Fonseca, J. D., 2004. 1755 – O terramoto de Lisboa. Argumentum, Lisboa, 139 p.

Nozes, J., 1990. O Terramoto de 1755 - Testemunhos Britânicos: Colectânea de relatos do séc. XVIII. Lisóptima Edições, Lisboa, 277p.

Mapa:

 

 


Local:

Bairro de S. Paulo/ Igreja de S. Paulo (Local 6)

Transcrições:

"Eisque de repente entra o mar pela barra com huma furiosa inundação de agoas, que não fizeram igual estrago em Lisboa, que em outras partes, pela distancia que ha de mais de duas legoas[1] desta Cidade á foz do Rio. Com tudo passando os seus antigos lemites, se lançou por cima de muitos edificios, e alagou o bairro de S. Paulo. Cresceu em todos os que havião procurado as prayas o espanto das agoas, e o novo perigo se difundiu por toda a Cidade, e seus suburbios, com huma voz vaga, que dizia, que vinha o mar cobrindo tudo." (Mendonça, 1758) (a) (b) (c) (d)

"De repente ouvi um clamor geral: «O mar está a subir, vamos todos morrer.» Ao escutar isto, dirigi o olhar em direcção ao rio, que naquele lugar tem uns seis ou oito quilómetros de largura, pude observá-lo a ondear e a elevar-se de uma maneira inexplicável, pois não havia a mais leve brisa. De repente, apareceu a uma pequena distância uma enorme massa de água a erguer-se como uma montanha, aproximando-se espumando e rugindo, precipitando-se em direcção à terra tão impetuosamente que, não obstante termos imediatamente fugido com a maior rapidez para salvar as nossas vidas, muitos foram arrastados para o largo. Os restantes ficaram com água acima da cintura, a boa distância das margens." (Nozes, 1990) (a) (b) (c) (d)

"Não havia muito tempo que estava na zona de São Paulo, quando senti o terceiro abalo. Apesar de menos violento do que os dois anteriores, o mar voltou a subir novamente e a recuar com a mesma rapidez, de tal maneira que fiquei com água até aos joelhos embora tivesse subido para um pequeno morro, a alguma distância do rio, tendo as ruínas intermédias de várias casas quebrado a sua força. Reparei nesse altura que as águas recuaram tão impetuosamente, que algumas embarcações que navegavam em água com sete braças[2] de profundidade ficaram completamente a seco, e assim continuaram as águas alternadamente , a subir e a recuar várias vezes seguidas[...]" (Nozes, 1990)

Observações:

[1] Uma légua equivale a 5555,55m (Barreiro, 1838; Marques, 2001).

[2] Uma braça equivale a 2,2m (Barreiro, 1838; Marques, 2001); as águas teriam cerca de 15,4m de profundidade.

(a) Também referido em Oliveira, 2005.

(b) Também referido em Mineiro, 2005.

(c) Também transcrito em Baptista e Miranda, 2009.

(d) Transcrito também em Baptista, 1998.

Referências:

Baptista, M.A., 1998. Génese propagação e impacte de tsunamis na Costa Portuguesa. Dissertação apresentada à Universidade de Lisboa para a obtenção do grau de Doutor em Física, na especialidade de Geofísica, Lisboa, pp.213.

Baptista, M.A., Miranda, J.M., 2009. Revision of the portuguese catalog of tsunamis. Natural hazards and earth system sciences, 9, pp.25-42.

Barreiro, F.J., 1838. Memoria sobre os pesos e medidas de Portugal, Espanha, Inglaterra, e França, que se empregão nos trabalhos do Corpo de Engenheiros e da Arma de Artilharia; e noticia das principais medidas da mesma espécie, usadas para fins militares em outras nações. Tipografia da Academia Real das Sciencias, Lisboa, 80p.

Marques, M.S., 2001. Cartografia antiga: tabela de equivalências de medidas: cálculo de escalas e conversão de valores de coordenadas geográficas. 1ª edição, Biblioteca Nacional, Lisboa, 104p.

Mendonça, J. J. M., 1758. Historia universal dos terramotos, que tem havido no mundo, de que ha noticia, desde a sua creação até o seculo presente: com uma narraçam individual do terramoto do primeiro de Novembro de 1755, e noticia verdadeira dos seus effeitos em Lisboa, todo Portugal, Algarves, e mais partes da Europa, Africa, e America, aonde se estendeu: E huma dissertação phisica sobre as causas geraes dos terramotos, seus effeitos, differenças, e prognosticos; e as particulares do ultimo. Na offic. de Antonio Vicente da Silva, Lisboa, 272p.

Mineiro, A.C., 2005. A propósito das medidas de remediação e da opção política de reedificar a Cidade de Lisboa sobre os seus escombros, após o sismo de 1 Novembro de 1755: reflexões. Em: FLAD e Público (eds), O grande terramoto de Lisboa, Vol.1, Descrições, Tipografia Peres, SA., pp. 189-219.

Nozes, J., 1990. O Terramoto de 1755 - Testemunhos Britânicos: Colectânea de relatos do séc. XVIII. Lisóptima Edições, Lisboa, 277p.

Oliveira, C.S., 2005. Descrição do terramoto de 1755, sua extensão, causas e efeitos. O sismo. O tsunami. O incêndio. Em: FLAD e Público (eds), O grande terramoto de Lisboa, Vol.1, Descrições, Tipografia Peres, SA., pp.23-87.

Mapa:

 

 


Local:

Boavista (perto do actual edifício da Marinha) (Local 6)

Transcrições:

"Foi surpreendente observar vários navios grandes, que estavam em seco na Boavista[1], a desencalhar e a serem levados rio abaixo." (Nozes, 1990) (a)

Observações:

[1] Refere-se à zona onde hoje é o edifício da Marinha, entre o Cais do Sodré e a Praça do Comércio.

(a) Também transcrito em Fonseca, 2004.

Referências:

Fonseca, J. D., 2004. 1755 – O terramoto de Lisboa. Argumentum, Lisboa, 135 p.

Nozes, J., 1990. O Terramoto de 1755 - Testemunhos Britânicos: Colectânea de relatos do séc. XVIII. Lisóptima Edições, Lisboa, 277p.

Mapa:

 

 


Local:

Cais da Pedra/ Terreiro do Paço (Local 6)

Transcrições:

"O impeto das agoas desfez o formossisimo Caes da pedra[1], que descorria na marinha do Terreiro do Paço, desde Alfandega[2] até quasi á frente de do Forte da Vedoria. Muitos supposerão, que neste citio houvera sub erção, por não refletirem a grande força das agoas, que achando aquella pedraria desligada do Terramoto a espalhou, levando as correntes o entulho, com que se havia formado." (Mendonça, 1758)

"Junte-se igualmente a isto, que o Cais da Pedra, adjacente a esta praça[3], já se tinha afundado e o mínimo avanço das águas submergir-nos-ia a todos." (Nozes, 1990)

"[...]corri para uma grande praça[4] ali perto onde ficavam o palácio, a oeste, a rua em que vivia, ao norte, o rio, a sul, e a Alfândega e armazéns, a leste. Mas este funesto terramoto teve uma tal influência sobre o mar e o rio que a água subiu várias jardas[5] na perpendicular, em cerca de dez minutos; [...]" (Nozes, 1990)

"[...]o rio subiu imediatamente perto de seis metros e num instante baixou; nessa altura viu o cais[6] com uma multidão de gente em cima afundar-se, e ao mesmo tempo todos os barcos e embarcações perto dele foram arrastados [...]" (Nozes, 1990) (a) (b)

"Supunha-se que o cais da Alfândega[7] era um lugar de segurança; mas, infelizmente, ficou inundado bem depressa e aqueles que fugiram para lá, apenas escaparam da cidade em queda para encontrar uma sepultura na água." (Nozes, 1990)

"(...) depois do referido Terremoto logo immediatamente cresceu o mar por duas, outras vezes em forma, que paressia querer sumergir a terra, chegando a entrar em o Terreyro de Passo (...)" (Sousa, 1928)

"O mar subindo em partes tres Braças[8] em alto o que fes por tres vezes sahindo com impeto dos seus limites, [outras tres vezes retrocedeu com igual aceleração] deu cauza a estender as suas aguas em alguns citios a bem longes distancias, pella terra dentro em que levou algumas pessoas e quanto encontrava, deitando por outras tantas vezes com furor tudo quanto tinha levado. As ondas furiozas despedaçarão as ancoras e quebrarão as amarras dos Navios. O Caes da pedra se apartou da terra e se sumergio, e grande parte da Alfandega." (Sousa, 1928)

"O Povo atonito , e expavorido buscou as margens do ryo para a segurança das vidas, mas como o dia era de juizo e de vingança da justiça divina ofendida, quis que em o remedio se experimentasse a mayor ruina, porque empoladas as agoas, e embravecido o mar parece queria competir com as nuvens e descarregando o impulso de suas ondas sobre os que estavão nas prayas os arrebetou, subvertendoce ao mesmo tempo todo o Caes de pedra com parte do Jardim do tabaco (…)" (Sousa, 1928)

"(…) e alagou em partes com o seu fluxo e refluxo a orla das agoas que sairam do seu antigo leito e inundaram a Alfândega, o Terreiro e a Vedoria (…)" (Silva, 1756, in Baptista, 1998) (a) (b) (c) (d)

Observações:

[1] Este era um cais que havia sido inaugurado recentemente à data do terramoto e que se situava no actual Terreiro do Paço, sendo que a sua a sua zona este se iniciava onde agora se situa o actual torreão nascente do Ministério das Finanças.

[2] Julga-se que esta antiga Alfândega se situava no mesmo local do actual Ministério das Finanças.

[3] Refere-se ao Terreiro do Paço.

[4] Refere-se de novo ao Terreiro do Paço.

[5] Uma jarda equivale a 91,44cm (Marques, 2001).

[6] Refere-se ao Cais da Pedra.

[7] O cais da Alfândega situava-se um pouco a este do Cais da Pedra.

[8] Uma braça equivale a 2,2m (Barreiro, 1838; Marques, 2001); o mar teria subido 6.6m.

(a) Transcrito também em Oliveira, 2005.

(b) Transcrito também em Mineiro, 2005.

(c) Transcrito também em Baptista et al., 2006a.

(d) Transcrito também em Baptista e Miranda, 2009.

Referências:

Baptista, M.A., 1998. Génese propagação e impacte de tsunamis na Costa Portuguesa. Dissertação apresentada à Universidade de Lisboa para a obtenção do grau de Doutor em Física, na especialidade de Geofísica, Lisboa, pp.213.

Baptista, M.A., Soares, P.M., Miranda, J.M., Luis, J.F., 2006a. Tsunami propagation along the Tagus estuary (Lisbon, Portugal) – preliminary results. Science of tsunami hazards, Vol. 24, No.5, pp.329-338.

Baptista, M.A., Miranda, J.M., 2009. Revision of the portuguese catalog of tsunamis. Natural hazards and earth system sciences, 9, pp.25-42.

Barreiro, F.J., 1838. Memoria sobre os pesos e medidas de Portugal, Espanha, Inglaterra, e França, que se empregão nos trabalhos do Corpo de Engenheiros e da Arma de Artilharia; e noticia das principais medidas da mesma espécie, usadas para fins militares em outras nações. Tipografia da Academia Real das Sciencias, Lisboa, 80p.

Marques, M.S., 2001. Cartografia antiga: tabela de equivalências de medidas: cálculo de escalas e conversão de valores de coordenadas geográficas. 1ª edição, Biblioteca Nacional, Lisboa, 104p.

Mendonça, J. J. M., 1758. Historia universal dos terramotos, que tem havido no mundo, de que ha noticia, desde a sua creação até o seculo presente: com uma narraçam individual do terramoto do primeiro de Novembro de 1755, e noticia verdadeira dos seus effeitos em Lisboa, todo Portugal, Algarves, e mais partes da Europa, Africa, e America, aonde se estendeu: E huma dissertação phisica sobre as causas geraes dos terramotos, seus effeitos, differenças, e prognosticos; e as particulares do ultimo. Na offic. de Antonio Vicente da Silva, Lisboa, 272p.

Mineiro, A.C., 2005. A propósito das medidas de remediação e da opção política de reedificar a Cidade de Lisboa sobre os seus escombros, após o sismo de 1 Novembro de 1755: reflexões. Em: FLAD e Público (eds), O grande terramoto de Lisboa, Vol.1, Descrições, Tipografia Peres, SA., pp. 189-219.

Nozes, J., 1990. O Terramoto de 1755 - Testemunhos Britânicos: Colectânea de relatos do séc. XVIII. Lisóptima Edições, Lisboa, 277p.

Oliveira, C.S., 2005. Descrição do terramoto de 1755, sua extensão, causas e efeitos. O sismo. O tsunami. O incêndio. Em: FLAD e Público (eds), O grande terramoto de Lisboa, Vol.1, Descrições, Tipografia Peres, SA., pp.23-87.

Sousa, F. L. P., 1928. O Terramoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um estudo demográfico: volume III - Distrito de Lisboa. Tipografia do comercio, Lisboa, 949p.

Mapa:

 

 


Local:

Cacilhas, Almada, Seixal, Barreiro, Lavradio, Coina e Alhos-Vedros (Local 7)

Transcrições:

"As villas da Marinha fronteiras a Lx.ª como são Lavradio, Barreyros, Seixal, Coyna, Alhos vedros, Cacilhas, e Almada padecerão igual infelicidade morrendo muitas pessoas não só debaixo dos edificios mas tambem afogadas no mar, que por ellas entrou de improviso." [1] (Sousa, 1928)

Observações:

[1] Todas estas localidades, excepto Lisboa, se situam na margem sul do Tejo.

Referências:

Sousa, F. L. P., 1928. O Terremoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um estudo demográfico: volume III - Distrito de Lisboa. Tipografia do comercio, Lisboa, 949p.

Mapa:

 

 


Local:

Aldeia da Costa (Actual Costa de Caparica) (Local 4)

Transcrições:

"Pelo registo dos obitos morreram 19 pessoas, entre elas afogadas na Costa 5, o que prova que foi grande nesta parte a acção do maremoto, devido à praia estar orientada para S.S.O." (Sousa, 1928)

Referências:

Sousa, F. L. P., 1928. O Terremoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um estudo demográfico: volume III - Distrito de Lisboa. Tipografia do comercio, Lisboa, 949p.

Mapa:

 

 



Evento 29-03-1756

Local: Tejo (Geral)

Transcrições:

"[...] On rapporte que le 29 au matin, on essuya encore dans cette Capitale (Lisboa) une violente secousse & que les eaux du Tage haussérement considérablement." (Journal historique, Juin 1756, in Campos, 1998) (a)

Observações:

(a) Também transcrito em Baptista e Miranda, 2009.

Referências:

Baptista, M.A., Miranda, J.M., 2009. Revision of the portuguese catalog of tsunamis. Natural hazards and earth system sciences, 9, pp.25-42.

Campos, I. M. B. de, 1998. O grande terramoto (1755). Parceria, Lisboa, 693p.

Mapa:

 

 



Evento 31-03-1761

Local: Tejo (Geral)

Transcrições:

"About 11⁄4 hr after the earthquake a tsunami was observed in Lisbon. Its amplitude is estimated as eight feet [1], affecting several ships that were left dry at some intervals" (Molloy, 1761, in Baptista et al., 2006b).

Observações:

[1] Um pé inglês equivale a 0,3049m (Barreiro, 1838; Marques, 2001); a onda teria uma altura aproximada de 2,44m.

Referências:

Baptista, M. A., Miranda, J. M., Luis, J. F., 2006b. In search of the 31 march 1761 earthquake and tsunami source. B. sismol. Soc. Am., Vol.96, No.2, pp.713-721.

Barreiro, F.J., 1838. Memoria sobre os pesos e medidas de Portugal, Espanha, Inglaterra, e França, que se empregão nos trabalhos do Corpo de Engenheiros e da Arma de Artilharia; e noticia das principais medidas da mesma espécie, usadas para fins militares em outras nações. Tipografia da Academia Real das Sciencias, Lisboa, 80p.

Marques, M.S., 2001. Cartografia antiga: tabela de equivalências de medidas: cálculo de escalas e conversão de valores de coordenadas geográficas. 1ª edição, Biblioteca Nacional, Lisboa, 104p.

Mapa: